O Adeus a Paulo Sérgio Martins

O funcionário da Administração Fazendária de Patrocínio morreu vítima de câncer na última sexta-feira (04).

Igor Nunes
08/01/2013 - 23h59

O Adeus a Paulo Sérgio Martins

Faleceu em Patrocínio nesta sexta-feira (04), na Santa Casa, o funcionário da Administração Fazendária e membro da Academia Patrocinense de Letras Paulo Sérgio Martins.

Paulinho, como era conhecido, deixa três filhos, Paula Gabriela, Marina Luiza e Pedro Laini. O corpo foi velado na Funerária Frederico Osanan e o sepultamento aconteceu na tarde de

sábado às 14h30. Paulo Sérgio também é tio do repórter Igor Nunes e do publicitário Iuri Nunes. 

O primo de Paulinho que atualmente reside no Canadá escreveu uma homenagem ao grande amigo.

Homenagem David Araújo:

 

Nós o conhecemos como Serginho, mas ele era conhecido por muitos outros nomes. Para os amigos de futebol era o Pateta, irmão do Canela. Para os colegas de trabalho era o Paulo Sérgio. Para muitos era o Paulinho. Para minha irmã, Padin Segin. Para mim era compadre Segin, no melhor estilo mineiro que ele adora.

A primeira lembrança que tenho dele foi de um jipinho vermelho a pedal, no qual ele era o motorista e eu era o “co-piloto”. Foi nesta época que ganhou um famoso troféu que eu invejava muito: um gesso no braço direito, resultado de uma queda desastrosa nas escadas do colégio e que terminou em uma fratura exposta. Para minha mente infantil, só o fato de ter uma “fratura exposta” já fazia dele um herói. E a memória ficou estampada no quadro que havia na sala da casa da D. Inda, que ficou até a casa ser demolida.

Outra lembrança destes tempos era de estarmos os dois vestidos iguais, de calça “boca-de-sino” marrom com risca de giz e camisa de seda verde com bandeirinhas, que usamos no meu aniversário de cinco anos. Esta também ficou imortalizada em um quadro que tínhamos na casa de minha mãe.

Pouco depois disto ele começou a trabalhar na Saiasi como ajudante de sapateiro, e depois na Pitter. Nossas brincadeiras minguaram porque ele já era um menino responsável e trabalhador por volta dos 13. Mas continuou meu herói, especialmente no dia em que foi parar no pronto socorro porque havia enfiado uma “sovela” na mão. Para lembrar, a sovela era a agulha que os sapateiros usavam, áspera, longa e com tudo que havia para fazer daquele acidente um milagre aos meus olhos de menino. E dele, mais uma vez, um herói.

Me passou as primeiras paixões pelo futebol e seu amor pelo Cruzeiro me contagiou. Ainda sou um anti-atleticano por sua imensurável culpa.

Ainda na adolescência ele começou a mostrar um pendor especial para a subversão. Em tempos ainda de ditadura, ele já lia “As veias abertas da América Latina” do Eduardo Galeano, e ouvia a música do Geraldo Vandré, Chico Buarque e outros “cassados” e “caçados”. Com ele aprendi a ser subversivo e a ouvir gente como Ednardo (“Pavão Misterioso”), Zé Ramalho (“Avohai”) e Joan Baez (“Blessed Are”). Muitos anos depois, já homens feitos, ele me mandou uma cópia digital do Blessed Are, que era uma jóia raríssima para nós. Ainda aprendi a apreciar o Rock Progressivo do Pink Floyd, embora na época nem imaginássemos o alcance daquelas letras explosivas.

Nesta época e a partir daí éramos confundidos às vezes na rua. Quantas vezes não conversei longamente com gente que pensava que falava com o Serginho, e ele com gente que pensava que era o Davizinho!

Aos meus 14 anos fomos sócios em uma “empreitada comercial”. Tivemos a Papelaria Coruja, que vendia artigos escolares, de escritório e livros. Nossa sociedade não durou muito, mas foi uma época de muito aprendizado para nós, de onde saíram muitas experiências e muitas novas amizades. Ele saiu para buscar a vida, fazer seus concursos, construir uma carreira. Eu saí para estudar fora, buscando também voar um pouco mais além e ver o mundo que ele me ajudou a descobrir que existia.

A cerimônia do seu casamento foi um acontecimento familiar enorme. O terno “jeans” era a nota de rebeldia que ele se permitiu neste dia. Ele e a Marilane eram colegas de teatro, de subversão, de mocidade, e o casamento não podia ser diferente, romanticamente rebelde. Quanto passou desde então e quanta história não se acumula no fundo dos corações. Foram grandes companheiros, separados com uma grande dor. Tive o privilégio de viver com eles parte desta grande amizade e do carinho que esteve presente até o final.

Veio a Paula. Veio o Gabriel. Com um ano e meio de idade, perdemos tragicamente o Gabriel. Uma tragédia sem explicação, sem sentido, sem fim. No momento de maior dor, Serginho me abraçou e disse: “dói muito! Dói muito!” Foi aí que senti pela primeira vez, no fundo, o sentido de amar e perder. Chorei muito mais pela dor dele do que pela minha dor naquele momento. Chorei de ver o sofrimento, de perceber a perda, a distância, a impotência, e o amor do pai que perdeu o filho. Até ali ainda éramos inocentes, o peso da perda ainda não havia nos aberto os olhos. Ali vimos que o mundo é intenso, e como estivemos na alegria também podemos estar na tristeza. Perdemos a inocência!

E ver a Paula sofrendo ainda era mais. Um anjinho lidando com a dor da perda, dos machucados, das cirurgias, dos curativos. Mas a força dela nos ajudou a encarar a dor com fé e um resto de esperança.

Agora, na dor da perda, a Paula me mostrou o equilíbrio, o apoio, a emoção.

Vieram a Marina e o Pedro. A Marina chegou no tempo certo, sem saber e sem ser planejada. Mas trouxe uma alegria e um alento sem medidas. Passamos momentos muito difíceis com a sua saúde na infância e nos passou muitos sustos. E agora, no momento da dor da perda do nosso Serginho, vejo a Marina como uma mulher que enfrenta desafios, que tomou nas mãos e de frente o cuidado do pai, provando que veio com um objetivo, e que com os irmãos soube tomar as decisões mais difíceis.

O Pedro, meu afilhado! Também um menino que já me passou sustos na vida. Mas que acabou sendo muito do que eu e o Serginho sempre gostamos: músico, poeta e sereno. Uma serenidade que aparece no jeito de olhar, no falar, no calar. Tenho certeza que ele está sofrendo muito nesta hora, mas o que aflora à superfície é muito menor que a dor que ele leva dentro.

A namorada Paula, com quem a vida se mostra tão injusta. Imagino o quanto esta perda é pesada. Um companheiro, um amigo, um amor que vai tão cedo. Mas onde aparece a injustiça, a fé tem que aparecer mais forte. Só o sentido da fé pode nos sustentar e dar sentido a esta dor.

Serginho, meu primo, meu irmão: vá tranquilo!! Braços abertos te esperam do outro lado e a sua dor acabou! Todas as suas lutas, as injustiças que a vida te fez, sua tão sofrida identidade, tudo fica para trás. Este ciclo acabou e você deposita o peso da doença, das tragédias e da busca por sentido. Só nós ficamos com o vazio da perda, com a memória. Para nós, os vivos, esta é a única forma de imortalidade: a memória. E eu ainda fico com a memória daquele dia em que nos abraçamos e que você disse da sua dor. De novo sinto a dor da perda e digo: “dói muito”!

Foto: Arquivo pessoal.

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